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Perda de floresta tropical primária

Perda de floresta primária tropical piorou em 2022, apesar dos compromissos internacionais para acabar com a desflorestação

Um relatório da Global Forest Watch revela que o mundo perdeu 10,2 milhões de hectares de floresta primária tropical em 2022, um aumento de 10% em relação ao ano anterior. Este é o primeiro relatório que abrange um ano completo desde a cimeira do clima de Glasgow, em novembro de 2021, onde 145 países se comprometeram a travar a desflorestação até 2030.

A floresta primária tropical é a mais rica em biodiversidade e a mais importante para armazenar carbono e regular o clima. A sua perda resultou em 2,7 gigatoneladas de emissões de dióxido de carbono, um valor equivalente às emissões anuais de combustíveis fósseis da Índia, um país com 1,4 mil milhões de habitantes.

O Brasil foi o país com maior perda de floresta primária tropical, representando mais de 40% do total global. O país sul-americano perdeu 1,8 milhões de hectares de floresta primária em 2022, o que resultou em 1,2 gigatoneladas de emissões de dióxido de carbono, ou 2,5 vezes as suas emissões anuais de combustíveis fósseis.

A maior parte da desflorestação no Brasil ocorreu na Amazónia, a maior floresta tropical do mundo, que não enfrentava uma destruição tão grande há quase duas décadas. O aumento do desmatamento no Brasil está relacionado com a expansão da agricultura e da pecuária, a exploração ilegal de madeira e minérios e a falta de fiscalização e proteção ambiental por parte do governo.

Outros países que tiveram altas taxas de perda de floresta primária tropical foram a República Democrática do Congo e a Bolívia. A Bolívia teve o maior aumento percentual de perda de floresta primária em 2022, com 32%, o valor mais alto já registado para esse país. Um dos principais fatores que impulsionam a desflorestação na Bolívia é uma política governamental que incentiva os agricultores a desmatar grandes áreas para garantir títulos de propriedade.

A perda de floresta primária tropical também foi elevada em África. No Gana, o país que perdeu a maior proporção da sua floresta primária em 2022, a principal causa do desmatamento foi o corte de pequena escala para a produção de cacau.

No entanto, nem todas as notícias foram más. Alguns países mostraram melhorias na conservação das suas florestas tropicais. A Indonésia teve uma redução de 25% na perda de floresta primária em 2022, o quinto ano consecutivo de queda. A Malásia também teve o quinto ano seguido de redução na perda de floresta primária, embora com uma diferença menor em relação a 2021.

Desde que sofreu extensos incêndios florestais e turfeiros em 2016, que resultaram numa enorme perda de cobertura arbórea e numa poluição atmosférica generalizada e grave, a Indonésia implementou regulamentações mais rigorosas sobre a indústria do óleo de palma e outras responsáveis pela maior parte da perda.

O relatório da Global Forest Watch baseia-se em dados recolhidos por satélite pela Universidade de Maryland e documenta a perda de cobertura arbórea nos trópicos por causa do desmatamento, dos incêndios e outras causas.

O relatório da Global Forest Watch surge numa altura em que o Brasil tenta recuperar o seu papel de liderança na defesa da Amazónia e do clima. O Presidente brasileiro, Lula da Silva, que foi eleito em outubro de 2022 com a promessa de reverter as políticas ambientais do seu antecessor Jair Bolsonaro, tem feito vários contactos diplomáticos para mobilizar apoios e recursos para a conservação da floresta.

Numa conversa telefónica com o Presidente francês, Emmanuel Macron, no final de janeiro de 2023, Lula convidou-o a participar na cimeira da Organização do Tratado de Cooperação Amazónica, que pretende organizar este ano. França é o único país europeu que partilha o bioma amazónico, por causa do seu território ultramarino da Guiana Francesa.

Lula também aproveitou a ocasião para defender a soberania do Brasil sobre a Amazónia, depois de Macron ter criticado Bolsonaro pela sua gestão da floresta em 2019. Segundo um comunicado do Palácio do Planalto, Lula disse a Macron que "a Amazónia é nossa e nós vamos cuidar dela com muito carinho e responsabilidade".

Lula afirmou ainda que o Brasil está comprometido com os objetivos do Acordo de Paris e que vai apresentar metas mais ambiciosas de redução de emissões na próxima cimeira do clima, em Abu Dhabi. Lula também reiterou a oferta do Brasil para sediar a COP30 na Amazónia, em 2025, e pediu o apoio da França para essa candidatura.

Os autores do relatório alertam que é preciso acelerar as ações para cumprir os compromissos assumidos em Glasgow e evitar os piores impactos das alterações climáticas, da perda de biodiversidade e dos conflitos sociais.

Amazon rainforest orthographic projectionPor CactiStaccingCrane - Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=122066796

 

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